O médico de família recomendaria uns tempos na casa de campo. O de plano, um check up completo. Seu Joaquim, o pão quentinho que ela adora. Dona Bené, três colheres de mel. A professora de piano disse que era por causa da prova de amanhã. Suzaninha, a pequenina, deu um abraço apertado. Já a gata Graça passou a pata de leve em seu pé. “Tudo se resolve com um bocado de paciência, minha filha”, frase anotada no caderno de cabeceira, frase da Tia de criação, tia Dulce. Leu. E sarou que nada! O formigamento de Rita ainda não tinha nome. E já tinha fila para curar. Rita foi passear na praça em plena semana de trabalho. Disse que tinha um encontro com os pássaros nas árvores da praça. Os vôos podiam lhe dizer algo sobre aquilo. Quem cala, como sente. Seu Lacanio, do sebo onde tinha conta, não se agüentou quieto: “ formigamento, minha filha, só passa quando a gente dá nome pra ele”. “Minha mãe estava com essa formiga aí que a menina Rita está sentindo. Foi ao doutor e sabe o que ele disse ? Que ela não tinha nada. Daí ela rumou para casa e só passou quando ela tropeçou.”, soprou Humberto, o pipoqueiro da praça há 29 anos. Pegou Rita no colo. “Como é que é”, indagou Rita. “Verdade verdadeira, Ritinha. Mãe foi tropeçar perto da calçada onde um moço passava. Esse moço ajudou-lhe a levantar e quando ela percebeu, o formigamento passou. Ela já sabia quem seria o dono do seu coração. E foi aí que ela descobriu quem era a formiga: era a tal da desesperança que bate na gente. A desesperança desapareceu assim que o pai de Humberto surgiu. “O que seria do mundo sem essas formigas, digo, sem uma história de amor...o brigada, Seu Humberto, a pipoca está docinha como sempre, mas o nome da minha formiga é bem outro”. Rumou para casa como quem não pode deixar de tomar o remédio na hora certa. Abriu o caderno e pôs-se a escrever a estória que tinha na cabeça. Sem tirar nem pôr. O formigamento já tinha nome: o próximo livro de Rita. |