O que é barato? O que é caro? Estas duas perguntas me tem perseguido faz muito tempo. Esta semana duas notícias as trouxeram de volta a minha mente. A primeira delas era uma que dizia que alguém pagou U$ 103.000.000,00 por uma obra de arte. A segunda fazia uma comparação entre os valores dos condomínios de dois edifícios em Rio de Janeiro, o primeiro R$ 13.000,00 por mês eo segundo mais luxuoso, porém com mais apartamentos, era mais barato, R$ 9.500,00 mensais. A palavra “barato” na notícia me incomodou um pouco. Foi uma sensação estranha, como a de ouvir uma nota fora de tom numa sinfonia. De repente, se fez a luz. Recordei a resposta que dava aos meus filhos quando perguntavam se alguma coisa era cara ou barata. Dizia-lhes: Barato é tudo aquilo que podemos pagar sem que nos afete, e caro é tudo aquilo que não podemos comprar. Eles aceitavam e partiam para outras inquietudes. Imagino que as crianças e jovens que moram no edifício onde paga-se o condomínio mais caro do Rio de Janeiro, sua vida seja vivida num mundo de coisas baratas. Intento imaginar que coisas sejam caras para eles. Que desafios terão na vida? Que os motivará, numa sociedade materialista como a nossa? Por outro lado penso nos jovens que tem nascido em lares de salário mínimo, onde todos os meses se reúnem para dividir o dinheiro. Um pouco para o transporte, outro pouco para comida, outro pouco para o aluguel, e assim sucessivamente dividir o pouco para muitos poucos. Acredito que na segunda família o que mais se deve escutar é: Tudo está tão caro! Quando penso que o valor do meu apartamento daria para pagar um pouco mais que um ano de condomínio do prédio mais caro do Río, me assusto. Será que joguei fora minha vida? Será que ganho tão pouco? Mas, chega o jornal de domingoe fico um pouco mais tranquilo, meus ganhos me fazem pertencer à classe B no Brasil. De repente vejo quantoganha alguém da classe A e percebo que eles tampouco podem pagar os condomínios do edifício mais caro do Rio. Quem são essas pessoas que podem pagar essas somas? A que classe pertencem? A resposta é obvia, pertencem à classe que pode pagar U$ 103.000.000,00 por uma obra de arte. Tenho me desviado da comparação que queria fazer. Lembramquando disse que o valor de meu apartamento dava para pagar um pouco mais de um ano do condomíniomais caro do Rio. Também queria dizer-lhes que uma família que ganha um salário mínimo não poderia pagar o condomínio do apartamento, de uma de minhas filhas. Ou teria que trabalhar 25 anos, guardar tudo o que ganha, não comer, não viajar, não fazer nada exceto guardar tudo, para poder comprar um apartamento comum de dois quartos num bairro do Rio. Em cambio, eu teria que trabalhar 110 anos, nas mesmas condições para comprar um dosapartamentosno edifício mais caro do Rio. Alto aí! E sefazemos esses cálculos com o que a maioria dos haitianos vive? (Acredito que é um dólar por dia), teremos que refazer os cálculos para descobrir o que é barato e o que é caro, todos anteriores se transformaram em algo inútil. Realmente, acredito que a resposta que dei aos meus filhos era a única possível. Barato é o que podemos pagar sem esforço e caro é aquilo com o que somente podemos sonhar. Boa semana. |